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É o que abordou na entrevista que concedeu por telefone o filósofo Cirne-Lima ,que aponta a existência de um vácuo na filosofia ao excluir a natureza e a terra como ser vivo (Gaia) das preocupações éticas do homem. Toda a tradição do pensamento filosófico, diz ele, está baseada nas relações do homem com o homem, num sistema ético homocentrado, que nega os direitos de tudo que não seja humano – rios, florestas, animais, etc.“A ética ou é cósmica ou é estreita demais”, afirma. São questões que ele já abordou numa obra conjunta, "Correntes Contemporâneas de Ética" (Ed. Vozes), e em dois livros de sua autoria, "Dialética para Principiantes" (Ed. Unisinos) e "Depois de Hegel" (Educs), este recém lançado. A seguir, a síntese da entrevista.
EcoAgência - Que temas o sr. pretende desenvolver neste curso?
Carlos Cirne-Lima - A temática do curso é que a ecologia é mais e mais um problema não só político, mas principalmente ético, ético-político. E, por mais estranho que possa parecer, a filosofia não tem uma estrutura ética para fundamentar as questões ecológicas.
EcoAgência - O sr. quer dizer que a filosofia e os filósofos deveriam se ocupar mais da ecologia?
CC-L - Muito mais grave do que se ocupar mais, é que nas éticas que nós usamos desde Aristóteles até as contemporâneas não econtramos nenhum sistema ético que não seja homocentrado. Não se suja o rio dos Sinos em cima apenas porque mais abaixo têm habitantes que precisam de água limpa. A relação ética de Aristóteles até os filósofos contemporâneos, como Habermas, é sempre de homem para homem, e nunca a natureza ela mesma aparece como portadora de ética; o homem não tem nenhuma responsabilidade ética para com o rio.
EcoAgência - Nesta visão, a natureza só é importante enquanto serve ao homem.
CC-L - Exatamente, ou seja, se não houvesse nenhum homem rio abaixo, eu poderia sujar o rio como eu quisesse. Da mesma forma, não posso destruir a Amazônia (apenas) porque outros homens irão reclamar. Até agora não existiu nenhum grande pensador ou sistema ético na filosofia que tenha dito que o rio tem que ser preservado pelo seu valor no conjunto de coisas que é a nossa Terra, que é um ser vivo, conforme foi muito bem dito desde Aristóteles até (José) Lutzenberger. O problema que vou tratar no curso é que não há na filosofia nenhum sistema ético que não seja antropocentrado. Até hoje no Direito o portador de direitos é apenas o homem. Como grande concessão vão dizer que o feto humano também é portador de direito porque vai se transformar em homem. Agora, animais, árvores, rios, nada disso tem direitos.
EcoAgência - Embora haja pessoas que lutem por isso, para que se reconheça os direitos da natureza, dos animais.
CC-L - Mas até agora não se conseguiu. As pessoas que estão lutando, que estão fazendo ecologia, muitas vezes não se dão conta de que toda a filosofia tem um erro básico, que é fazer uma ética meramente antropocentrada.
EcoAgência - No movimento ecológico isso também aparece?
CC-L - Aparece porque querem ser ecológicos, e o são nas aplicações práticas, mas a base filosófica inexiste. Mesmo o Lutzenberger afirma que a natureza também é portadora de direitos, mas não dá a base filosófica,
EcoAgência - Então, quais seriam os fundamentos de uma filosofia que levasse em consideração os direitos da natureza?
CC-L - É uma filosofia que não pode ser apenas homocentrada, como foi de Aristóteless até Kant e os contemporâneos, como Habermas. Eles são ecológicos mas continuam deixando o homem como o único sujeito ético e sujeito de direito. O problema é mostrar que a ética é universal e, não havendo um outro homem na outra ponta, pode e deve haver uma relação ética, por exemplo, entre um homem e um cachorro, um homem e uma árvore. Não sou vegetariano, mas matar (um animal) sem necessidade de comer é violar os direitos da natureza. Um advogado vai dizer que vou usar a palavra direitos num sentido errado, metafórico, amplo demais, porque direitos são só do homem, ética é só do homem para o homem; vai discutir as bases de uma tradição jurídica errada, filosoficamente isso foi dito e repetido, mas não é verdade.
EcoAgência - E o que o sr. pensa da visão economicista, que só se preocupa com o aquecimento global na medida em que isso possa afetar os negócios?
CC-L - Mesmo nas relações econômicas, não podemos ter uma visão apenas homocentrada. Estão descobrindo que estamos destruindo a Terra, mas a preocupação não é com a Terra, é que o homem vai à breca se a Terra for à breca. O meu enfoque é que desde o começo a filosofia, a economia e o direito são centrados em torno do homem. Filosoficamente, é um problema de harmonia do Universo e isso é o fundamento da ética, não é apenas a harmonia entre homens, é o fundamento da harmonia do homem com a Terra e o Universo. É um enfoque completamente novo, que não tem base filosófica, e essa base filosófica está nos meus trabalhos de ética. No livro Correntes Contemporâneas de Ética (Ed. Vozes), em dois volumes, eu tenho um artigo em que faço, sem muita referência à ecologia, a fundamentação da ética de uma forma cósmica e não de uma forma meramente humana. A ética ou é cósmica ou é estreita demais, capenga. E o que nós temos hoje é isso, uma ética e um direito capengas.
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